segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Didi Chateada


Foto: Gabriel David
A minha Dior vulgo (Didi) hoje foi assediada na rua,  fato que a deixou muito estressada.
Mesmo ela, sempre altiva e maioral, combaliu aos excessos de amor de um amigo canino que encontramos durante a nossa caminhada matutina.

Tudo bem que ele é o cachorro mais lindo do condomínio, mas Didi queria mesmo era seguir sua trajetória a fim de continuar esbelta mesmo comendo tal qual uma lagarta de estação.
Definitivamente, não curtiu ser interpelada.

Mas as o excesso de demonstrações de carinho do amigo cachorro nem de longe agradou a dona felina.
Foi um início de atropelo, mas tudo não passou de uma pequena confusão, devido ao mal gênio da minha mocinha que, escapou da corrente, saiu correndo, transpôs altos muro até se livrar do amigo, que também não deixou de ser insistente, por se tratar de um cavalheiro, suponho.

Na correria Didi perdeu duas unhas. Voltamos para casa. Vaidosa como ela só, está zangada até com o Moshé como quem pensa. ” Seu obeso se você, não fosse tão sedentário, teria me defendido do assédio daquele vira-latas,
Observação. O cachorro era um pastor belga, siberiano ou coisa similar. Um espetáculo de animal.  Mas vamos respeitar a opinião da mocinha. Se achou que era um vira lata, não discutamos.

Ela está uma fera. Tanto que não quis nem fazer o seu tour diário na casa da vizinha da frente a quem ela faz de boba todos os dias. Faça chuva ou sol, ela tem de ir a casa da Antônia e pratica a mesma rotina.
A Didi é sistemática. Bate na porta, entra, arranha o tapete, sobe nas cadeiras, trepa na mesa, galga as escadas e olha para a dona da casa como quem diz: vamos subir  pois preciso inspecionar se está tudo ok lá por cima.
Isso inclui todos os quartos, banheiros e closets.  Dura em geral cerca de hora e meia. Depois de constatar que tudo anda nos conformes, deita-se sobre a mesa principal e põe-se a olhar o pé direito que, por sinal, é muito mais bonito que da nossa humilde residência.
Só depois,  pede pra voltar pra casa.  Dorme e se quer agradece pelo tempo desprendido pela anfitriã.

Dior é assim mesmo. Cheia de quereres. Pensa como deve estar aborrecida com o fato das unhas quebradas pela raiz, como dizem as mais dramáticas. Só as mulheres entendem o que significa quebrar uma unha, imaginem duas!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

As ruinas do paraíso


fotografia: Sabrina Santos
A noite não passava. O amanhã parecia improvável na eminencia do grande dia que se aproximava. Íamos para a Malhada da Boa Vista, a casa de vó Antônia. Cedinho, não importava o quanto frio a água do tanque se encontrava, o banho gelado era um momento necessário e feliz. E, ao raiar do sol, de carroça, cavalo ou a pé, lá estávamos nós, dobrando à esquerda da malhada a caminho da felicidade.
O corredor da Pitanga nunca era tão convidativo e a estrada principal então? Nos parecia o caminho do paraíso. Até a íngreme e assombrada ladeira da baixa grande ficava menos sinistra, até certo ponto quando os animais começavam a ofegar.
Mais quando deslumbrávamos a cancela de Lito, já a dó que sentia dos animais dava lugar ao frio na barriga graças ao burburinho dos cachorros da velha fazenda Laranjeiras com seu beiral azul de madeira carcomido pelos cupins, onde a matriarca da família, encontrava-se surdamente sentada em sua cadeira de balanço e parecia não se incomodar com a falta de cordialidade de seus cães para com os viajantes.
Aqueles animais faziam jus ao ditado; “quem muito ladra não morde”, mas não raro irritavam meu pai assim como meus tímpanos, mas nada que a sombra das cajazeiras não nos fizesse esquecer os desventurados caninos, onde parávamos para quebrar o desjejum.
 E, logo adiante, matávamos a sede nos caldeirões de João de Santo e, com sorte, passávamos despercebidos do Sr. João do Galo e sua interminável prosopopeia. Pois mesmo sendo nós crianças, meus pais correriam sério risco de encontra-lo e não sair dali sem um formal pedido de casamente contra uma de nós.
Os gado nelore dos dois lados da estrada, com suas enormes orelha pendidas,  comiam o sal diário em coxos de cimento enquanto olhava nossa comitiva com desdém, até alcançarmos a cancela de Totô, por entre a sinuosa  caatinga , que adiante dava lugar a contígua estrada para Mané do Pau Verde e seu menininho preto retinto que sempre nos abria a porteira, em troca de um singelo obrigado que lhe parecia valer mais que  moeda de cruzeiro,  graças ao largo sorriso com que nos atribuía.
E, não tardava para que o estalido desta cancela desse início ao revoar das quero-quero e seu estridente canto anunciando a nossa chegada. Os nossos corações quase saltavam do peito  aa vislumbrarmos de antemão no horizonte o telhada da grande fazenda dos cordeiros com seu curral de madeira repleto de bezerros recém-nascidos e,  do lado esquerdo, em meio ao tapete verde de sisal, emergia as paredes de tijolos cru, de nosso castelo, a casa de nossa avó.
Da cancela que dava acesso a propriedade, onde descíamos com gosto para abrir,  não mais nos apropriávamos dos meios de transportes; corríamos a pé, para o encontro dela. De chapéu de palha com abas largas e longo vestuário de cor escura, vó mirava-nos com olhar trespassado por cima dos óculos pousado sobre o nariz, proferindo um gracejo qualquer, ao passo que alcançamos o terreiro repleto de pedras pontiagudas, escapelando nossos dedos dos pés, mas seu abraço era tão reconfortante que valia quaisquer esforços para recebê-lo como prêmio na linha de chegada.
Daí por diante iniciava nossa inspeção por locais e coisas de que mais gostávamos. Porém, não  antes, de  darmos uma olhada para ver se tudo continuava como dantes no terreiro da frente.  A moita de cipó de leite, o pé de Umburana de Tio Armim, o motor de tio Quinca, o estabulo de fibra e o pé de juá-merim ou primavera. Se tudo estivesse em perfeita harmonia, começávamos a excursão interna.
O velho banco na varada, a sala principal e os dois quartos de terra batida, ostentando seus respectivos penicos de alumínio muito bem areados debaixo das camas uma com colchão de molas e outro de capim. E as paredes cobertas por gravuras de santos, com as ceras de velas formando cascatas. A cristaleira onde ficavam as compras e o pote com a bandeja repleto de copos de alumínio. Em frente, outro banco situado em baixo da janela onde repousavam os caqueiros de doze horas ao lado do paninho das escovas de dente.
Então chegava a vez da cozinha. Lá era tudo mágico. A pilastra onde ficavam as louças e o pote de água do rio. Também, servia como bancada de espera antes das refeições bem como local de birras quando queríamos que nossa avó fizesse alguma coisa de nosso agrado.
E sem esquecer do Girau na janela onde se lavava a louca com espoja de sisal e grande fogão de lenha com trempe de seis bocas, fazendo parede meia com a dispensa onde ficava o pau de carne, os bocapios com as guloseimas e as frutas de época. Lê-se goiabas, mangas, pinhas e cajus.
 E como ela dispunha de metade dos filhos pedreiros, isto lhe garantia uma arquitetura de última geração como cimento preto em toda a cozinha. Para a época isso equivale atualmente algo como granito de última qualidade e, do lado de fora, uma área com meias paredes, onde ficavam as gaiolas dos papagaios e da pomba Asa Branca.
Mas isto não é tudo. Tinha ainda o quintal de planta de todas a vicissitudes. Muitas delas, penduradas sobre os galhos de velha quixabeira, cujas sombras quedavam por cima do chiqueiro dos cagados que eram tão velhos e grandes que não se opunham a andar por horas a fio com a gente trepada por sobre seus ladrilhados cascos.
E depois corríamos a ver o pé de barriguda dos fundos, o ninho das galinhas, que não eram como as nossas. Minha avó era especialista em cruzamento genético de galinhas. Seu desafio era colocar várias caraterística das penosas numa só ave. Como por exemplo, obter uma matriz, pedrês, arrepiada, de pescoço pelado, nanica, suruca e, se brincasse, ainda colocava ovos azuis.  Geralmente, as galinhas ficavam, ao lado das babosas e das hortelãs graúdas em meio às palmas, ou seja, nossa toalete ao ar livre.
Mas o melhor ficava pro final. Era visitar o lixo. O lixo era uma espécie de quarto onde se guardava de tudo; desde ferramentas, arreios de amimais, roupas dos trabalhadores e o meu tesouro preferido, a mala de roupas velhas, de onde emanava tecidos mil para as confecções de roupas de bonecas. As vezes, ali  também residiam alguns intrusos, como a cobra  papa-pintos que meu tio lhe arranca parte do rabo por acidente, e ela por vergonha ou  rancor,  só retornou anos depois com sua traseira devidamente reconstruída.
E também tinha o monturo. Ah monturo!   O monturo era onde se jogava o lixo reciclável juntamente com as cinzas do fogão. Aquilo durante anos e anos, tornou-se uma pequena montanha sinuosa. Era meu shopping center. Lá se podia encontrar variedade de tampinhas e vasinhos, latinha e tantas outras quinquilharias de eu tanto gostava.
Depois desta incursão pelo lixo, corríamos a tomar banho. Embora as águas do lajedo fossem mais quentinhas, preferíamos o rio, onde pôr sobre suas margens repousavam solenemente os majestosos pés de manga.  E, se obedecêssemos à primeira chamada, chegávamos em casa a tempo de visitar a roça do rio onde ficavam as goiabeiras, pinhas e cajus, e as armadinhas de pegar codorna e preá denominada enxó.
De tudo isto que vos relato, restam apenas essas poucas paredes, como retrata a bela fotografia acima do meu primo Romualdo, e a pilastra onde ele descarrega suas lembranças, bem como um relevo de cinzas, onde outrora fora minha montanha de quinquilharias, permeada por garrafas e cacos de vidros que, assim como as lembranças, a natureza e tempo não absorvem,  mesmo  que já não seja mais regados a exatos 28 anos.
Além disso, ainda resiste firmemente a primavera e o nosso tesouro preferido, como uma rocha imaculada, sob a curvatura de seus 96 anos, eis nossa querida vó Antônia, ostentando o mastro da serenidade e o baluarte da retidão. E, quando ela partir ao infinito, poderemos nós seus 7 filhos,  35 netos e uma infinidade de bisnetos dizer, que ela nesta vida, não fez outra coisa, senão  combater o bom combate e guiar os seus ao estreito caminho da verdade.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Uma pequena maluca!

foto: Neide Lima
Quando ela nasceu eu já tinha 13 anos, motivo de grandes desavenças entre minha mãe e eu. Eram tempos difíceis, não cabia mais um filho em nosso orçamento.

Mas quando fui vê-la ainda no hospital, era uma bolotinha branca e careca, com rosto salpicado de sardas e enormes olhos arredondados, nossa semelhança gritava de tal maneira que  me levou ao arrependimento do constante desejo de colocar minha mãe ajoelhada no grão de milho por intermináveis nove meses.


Depois se mostrou-se muito chorona e altiva. Avessa a roupas, andava pelada na vizinhança fazendo amizades com todos e qualquer um que tivesse disposto a  lhe proporcionar alguns minutos de atenção.

E, toda peraltice que faltou em nossa infância, lhe foi atribuída sem miséria.  Certa feita, brincava de apagar uma vela com um dos meus poucos sutiãs, logo é de supor que o estrago não coube reparos e, mediante minha repreensão, pôs-se a defender-se magistralmente com seguinte argumento. “ Também, não sabe que a menina pequena é maluca, porque deixa as coisas à toa? Diante de irrefutável defesa, não coube outra reação minha senão cair na gargalhada.  

Maria José é o nome dela, embora eu sempre a chamei de Piu, por assemelhar-se a um passarinho, cantante e saltitante. A e a minha cópia mais ilustrativa, a não ser por sua bondade e gosto pela vida que se sobrepõe a mim em larga escala. Inclusive, quando  lhe foi presenteada com nome do santo de véspera por ter nascido em 19 de março, dia e São José.
Essa homenagem se sobrepôs ao meu entendimento.  Pensei: que triste destino dessa pequena ser reconhecida por nome tão, tão.... Vista que todas nós tínhamos, nomes bonitos, Vaneide, Lindineia, Lindinalva ... pensava eu genuinamente. Porém, não tardou eu reconhecer que ela teve sorte até nisso. Não sei se pelo nome religioso, fato é que a menina era ligada as coisas de Deus e,  desde sempre e com enorme senso de benevolência que até hoje perdura em sua personalidade hospitaleira e filantrópica.

Certa vez, contava cerca de 3 ou 4 anos e nos azucrinava as ideias querendo ir à missa; meu pai, não raro, era o responsável por tal excursão. Mas neste dia cismou, devido a um certo vestido que, segundo ele, tinha formato de somberlin (Sic).  Lê-se sombrinha ou guarda sol. E, como eu a tinha presenteado com tal vestimenta de tecido espesso e formato vase e que, ela fazia questão de usar, fiz o sacrifício.

A igreja lotada com calor dos trópicos elevado ao quadrado e ela me esmagando as pernas já que cantava e dançava todas as músicas do coral. Pedi, encarecidamente, para que se sentasse num banco à frente onde repousavam solenemente três comportadas crianças.  ‘Não vou me sentar juntos desses meninos feios”.  Respondeu-me sem titubear.

Tempos depois tive de partir. Deixei a minha Piu com pouco mais de 5 anos. Despediu-se sem camisetas e com os chinelos havaianas enfiados nas mãos. Estava mais ansiosa por participar da sua pelada matinal onde era goleira, do que triste pela nossa partida com retorno após três intermináveis anos.

Quando voltamos, ela continuava  a andar só com a parte inferior das roupas e alternava momentos de graciosidade com a rabugice nata dos caçulas. Já sabia fazer bolos, cozinhar e dançar o tchan como ninguém.  Mas continuava uma excelente goleira e com medo de fantasma.

O tempo passou e para a minha tristeza, rápido demais, de maneira que nossa mimada cresceu sem que eu me dessa conta. Agora passados 25 anos daquela missa, no último sábado, não pude deixar de garimpar no fundo de minha tísica  memória de saudosista, que, um daqueles meninos do banco da frente, não me parecia tão feio aos nossos olhos  e tão  pouco aos olhos de nossas bolotinha.

Aliás, estava lindo como sempre e nos agraciando com a satisfação de saber que a faz  tão feliz, já que é um pai, um marido e não diria um cunhado maravilhoso, pois não lhe cabe outra alcunha senão de irmão ou filho, tamanho é meu carinho por esse moleque que, além de ser o  menino do banco da frente, foi também meu gracioso aluno, quando cantava incansavelmente uma música que, paradoxalmente, minha irmã poderia cantar pra ele ou vice versa.

Não venha me dizer que o que aconteceu
Entre nós foi chuva de verão
Já diz o ditado, quem cala consente
Eu não vou desistir, você nasceu pra mim...

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Adeus à filha pródiga



Adeus sombra, adeus flores, adeus colorido

Hoje acordei com pequenos conglomerados de  pessoas em frente à minha casa. E foi assim desde de ontem à tarde. Muitas delas consternadas, assim como eu. Pessoas olhando como quem presta um último adeus, como quem perde um ente querido.

Era uma vez uma pequenina planta, tão pequena que cabia na palma da mão. Comprada em uma feira,  com dinheiro emprestado por um vizinho. Fui atraída pelas belas flores que a ornamentava num minúsculo vazo.
Uma muda de primavera que em pouco tempo cresceu como o furor das grandes paixões. Cresceu de tal modo que se sobrepôs à minha própria identidade. Passei a ser conhecida tão somente como a moradora da casa da primavera, assim como quase todos aqui da rua 11.
Era admirada, respeitada e folgada. Causou-me infindáveis encrencas tal qual muitos de nós em tempos de juventude, mas, ainda assim, angariou fãs por todo o condomínio. Em épocas de florarem. Tornamos-nos  ponto de peregrinação para fotos, tanto de moradores quanto de visitantes
Mas como todos os filhos, que precisamos dar mais raízes que asas, eu fiz ao contrário. Permiti que se espalhasse. Quer dizer, não consegui conter sua ânsia de viver, de crescer, de se auto moldar. Como uma adolescente rebelde, não respeitava obstáculos. Por mais que eu a podasse, dava-me infindáveis  voltas e seguia seu destino desenfreado.
E por adquirir mais asas que raízes, ao topar com as regras da natureza que chegou em sua precipitação de torrentes incontroláveis, ontem, 19 de fevereiro, em véspera de seu 4º aniversário, quedou à fúria de uma torrencial chuva de verão.
Foi como perder um bem amado, onde muitas vezes sob seu valioso tronco me prostrei a meditar sobre a vida, além das incontáveis inspirações que me trouxera a observar sua vivacidade e colorido de folhas e flores. Por mais que a vida me parecesse cinzenta, lá estava ela, colorida, a se balançar como se estivesse a executar um primoroso balé em ritmos descompassados.
Minha garagem jamais será a mesma. E quando seus restos foram devidamente removidos, terei a certeza que quedou, não por outra razão, senão comiseração, pois onde desejava terra,  só pude lhe conceder concreto.
há 6 meses a vida nos era mais colorida

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Morrer de amor

 PHOTO N:2766228 | PHOTOGRAPHER: МАРГАРИТА
Sou sempre acusada de muitas coisas, entre as quais de que não sou romântica.

E não o sou verdadeiramente. Embora não credito nenhum tipo de decrepitude aos que morrem de amores a cada estação.

Porém prefiro deixar a cargo, ou ouvir de quem realmente sabia falar de amor; Machado ou José de Alencar, ou até mesmo Vinicius e Ton.

 Esses, certamente tivessem ou engendrassem motivos para falar de amores profundos. Assim sendo, prefiro fazer minhas as palavras abaixo, do sábio Augusto dos Anjos, com raras exceções a fim de evitarmos  extremos.

“Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! 
O amor da Humanidade é uma mentira. 
É. E é por isso que na minha lira 
De amores fúteis poucas vezes falo”



Embora chegue a conclusão de que até os mais brutos dos brutos amam. Infeliz trocadilho. Ou são justamente brutos porque amaram sem ser correspondido, e acreditam ser o amor verdadeiro uma espada desviada do seu fulcro. Pois hoje, abro exceção para contar-lhes uma dessas liras, de que raramente falo.

Ela tinha 12 anos, ele 16. Ela era pobre e ele  ainda mais. Ela estudava, ele iniciava-se na boêmia. Sobre ela, os pais tinham zelo e controle,  ele já se precipitava a certos descontroles. As  sardas do rosto pálido e o chapéu de couro cru, embaixo daquela arvore, ambos se esquivado do sol mortífero do meio dia, ela voltando da escola, ele indo pescar, jamais fora esquecidos pela menina.

E sua pela branca, com rosto corado de sol e ornamentado por ondulados cabelos castanhos, jamais saíram dos sentidos do menino, já se fazendo homem. Não se sabe se por acaso ou providencialmente, encontraram-se ali, varias vezes naquele mesmo lugar, debaixo da mesma árvore, partilhando da mesma sombra. E se falaram muito, não chegou a ultrapassar meia dúzia de palavras. Entre elas:

 -Você me daria um beijo?
-Não.
-Por que?
-Pai não ia gostar.

Jamais se olharam nos olhos, ou trocaram uma palavra que fosse. Ela cresceu, começou a namorar outro, e  ele caiu pros bares da vida. A única comunicação entre ambos era a fatídica prosa, que declamava a cada vez que, por acaso, atravessavam a mesma calçada por longos anos.“Quando eu morrer não queiro nem choro, nem vela, basta-me uma fita  amarela, gravada com o nome dela”

Mudaram-se de cidade, ambos em busca de futuro promissor. Ela teve vários amores, ou tentativas de. Ele nenhum que se tenha notado. Deitou-se como de costume, certo dia, e seu bafo corriqueiro de aguardente, inacreditavelmente, não  empesteou o ar. Dormia com alguns colegas de trabalho os quais não  conseguiram tirá-lo da cama no dia seguinte para o inicio do oficio diário. Lá permaneceu deitado incólume, teso, pasmo, estático.

Quando o cortejo chegou a sua cidade natal, nada foi mais dolorido ver tudo o que restou do menino de 16 anos de pernas cambotas e sardas no rosto, que jurou dominar o mundo nos braços da menina amada. Jazia ali além de um coração inerte, uma pequena mala, acima do caixão de madeira clara, contendo toda a equação que uma vida  lhe  proporcionou. Era pequena demais, não cabia ali, nem  mulheres, nem filhos, nem bens, nem muitos amigos.

E quando lhe perguntavam por que nunca havia se casado. A resposta era sempre a mesma “ Sou homem de uma só mulher, de um único amor”, cujo nome  jamais revelou, a não ser, a discrição de sê-la branquinha. Por isso, “Se algum dia o amor vier a bater-te a porta, não sejas  estupido, a ponto de dizer-lhe  que fugiu de casa” será mais fácil que providenciar a faixa sepulcral. Quem saberá o tamanho, o formato de letra, onde deverá pousar. Acima, lateral ou transversal. Ou melhor, estilo bandeira com mastro para que o vento enuncie a outros corações, que o amor verdadeiro nem a morte apaga?

Conquanto não sera fácil, ornamentar a última morada de um ser, pois se ao menos este se dignasse a quebrar o triste ruído do seu silencio desse  uma única opinião.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Surge nova modalidade olímpica


O meu próximo livro já tem título. Personagens e  muitas e muitas histórias garantidas. Será “Medo de baratas”

Certamente se eu fosse da área de estudos da mente humana , o medo de baratas seria indiscutivelmente o meu objeto de estudos. 

Pois creio que se por ventura um dia o Bonner anunciar que virá um asteroide em direção a terra sem a menor chance de sobrevivência para os terráqueos,  as mulheres do sofá certamente dirão, será que agora, finalmente  elas serão extintas ?

Penso, sinceramente, que este medo insano de insetos seja cultural e hereditário, por isso já sugiro um estudo imediato de uma vacina, porque esta doença tende a se alastrar.

Mas não vamos generalizar, principalmente entre as mulheres, existem as que apenas têm medo, as que têm medo apenas de matar,  as que têm medo só se o marido não estiver em casa. Mas já há as especialistas em fobia a baratas; São aquelas que as  reconhecem pelo cheiro, bater de asas, barulho de passos e até pela sombra delas no escuro. São as que galgam uma  parede em décimos de segundo,  se pendura no lustre, torcendo para que não seja uma barata voadora.

 Mas há outro questionamento que gostaria muito de desvendar caso pudesse fazer tal estudo. É que  suspeito humildemente, que esse  medo exacerbado das cascudinhas e coisa da gente de cá.  Já sobre as  baratas voadoras, posso afirmar categoricamente que é pura  invenção da fértil imaginação  das mulheres paulistas. Pois cada qual tem uma historia horripilante sobre as cascudas voadoras que lhe renderam traumas para a vida inteira.

Pois se não me falha a memória, nuca vi lá pras banda onde nasci uma vizinha atravessar cerca de arame farpado ou galgar uma arvore de um só pulo por conta de uma simples barata. Muito pelo contrario, era um insetinho  como outro qualquer.

 Inclusive, quando eu era criança, matinha uma significativa criação delas, embora jamais tivesse o privilégio de consegui uma voadora, iguais a essas que pairam a cada recanto desta pauliceia, o que, certamente, iria enriquecer em muito minha parca coleção de baratas simplórias e caipiras que jamais conheceram um esgoto, bocas de lobo, tão pouco lixões.

Residiam pobremente,  em uma velha mala, onde mãe guardava as roupas que não nos serviam mais. Vez ou outra, eu a abria e lá estavam elas felizes da vida, de casco brilhoso e procriando a beça. Notava-se pela quantidade de saltitantes filhotinhos. Ainda hoje, penso como sobreviviam ali, sem comida, sem ar, sem luz... Bem, sobreviveram a coisas piores! Bomba atômica, evento da extinção dos dinossauros e sabe-se lá ao que mais além da fúria da mulherada. Não há o que se discutir, são realmente enigmáticas, por isso me fascinam.

Eu gostaria, entre outras coisas, fundar uma ONG. Para melhor conscientizar a sociedade sobre as tristes injustiças das quais sofrem essas pobres remanescentes. Na cidade de Kamakura, no Japão, por exemplo,  foi inaugurado  pelo  escritor Takeshi Yoro  um monumento em homenagem aos insetos mortos. Ele  diz esperar que  a obra console as almas dos insetos que ele já matou.  No meu caso, teria de construir um monumento maior que o próprio Japão.

Eu mantinha uma relação de amor e ódio para com os bichos e insetos. Até aqueles que mais amava, como as borboletas, não eram poupadas. Eu as costurava uma as outras só para verem voando enfileirados; tirava o couro das lagartixas e aplicava injeção de água nos sapos. Alguns eventos  eram bem sucedidas outros nem tanto. Um dia, passei toda manhã, tentando matar uma pequena rã afogada no cocho de água dos porcos.  Segurava-a pelo pescoço embaixo da água durante uns dez a quinze minutos e quando a submergia, lá estava ela  com os olhinhos esbugalhados e carinha de feliz como se estivéssemos nos divertido juntas.

 Certa hora, cansei daquele cinismo e resolvi adiar a empreitada. Resultado: levei uma surra  por ter ficado tanto tempo fora de casa. Porém, quando minha irmã mais velha revelou-me que aquela pequena Anura jamais morreria afogada, já que  vivia  muito bem tanto fora quanto dentro da água, doeu mais que a surra de mãe,  reconhecer que mais uma vez,  aquela peste de irmã tinha razão.

Talvez por ser uma  Jeca Tatu, o máximo que consigo achar, é graça das fobias das pessoas em relação aos isentos, exceto minhocas, mas isso é outro departamento. Reservo-me ou direito de não falar sobre. Embora já tenha conhecido  significativa quantidade de pessoas que o pavor a baratas beira a incondicional  a ausência de sanidade mental.

Segundo o mestre em Psicologia da Saúde com Dissertação sobre Hipnose, Paulo Madjarof filho, “O mal conhecido que a barata pode causar ao homem não é muito diferente, e nem mais ameaçador, do que o mal que pode causar outros insetos análogos. A contaminação por bactéria – risco conhecido – certamente não é o fator relatado como o motivo do medo declarado. Ainda que sejamos conscientes dessa possibilidade, com certos cuidados habituais, sabemos quão reduzida ela é” http://www.mundodafilosofia.com.br, posto isto, já disponho de argumentos.

Uma amiga disse ser a principal qualidade de um homem, consegui matar baratas; segundo fazer sexo bem e em terceiro abrir o pote da azeitona, e o resto  vai se encaixado como der. Ainda bem que a proporção é de 1 homem para cada 9 mulheres que fazem contorcionismos ou alcançam a velocidade de um Guepardo para se enfiar em espaços inimagináveis por medo de baratas.

Outra  confessou que num desses dias de trevas aqui no condomínio,   entrou uma linda cascuda voadora, pela claraboia do banheiro. Ela não conseguiu dormir, mas adormeceu de tanto chorar de pânico, depois  ter ligados para todos os membros do sexo masculino que ela conhecia, sem que ninguém se habilitasse a socorre-la naquela triste madrugada. Adverti-a que dá próxima, em  vez de acionar os bombeiros, deverá me interfonar, será um prazer inenarrável constatar que baratas voadoras existem de verdade.

Porque  ao menos no nordeste, acho que  pegaram carona nos paus de arrara rumo ao sul,  sem jamais dar o ar da graça por lá novamente. Ou quem sabe, vieram voando mesmo, já que são peritas em alcançar a fresta de uma cortina numa janela  do 19º andar, como assim me fez crer uma outra amiga.

E nem só as baratas, atualmente,  são tidas como asquerosas. Até as borboletas, libélulas, cigarras, nem mesmo o canto dos pássaros na natureza é mais poético. Jamais paramos pra pensar porque eles existem; com certeza não deve ser para nos assustar. Já que seguimos uma cadeia onde um depende do outro para manter o equilíbrio natural da vida.

E, com certeza as baratas não são exceção. Devem ter seu papel além de assustar o sexo outrora frágil. Há até um livro de Henfil, chamado ”Diário de uma Cucaracha“ que tem uma edição especial para mulheres, será que poderia nos ajudar¿ Ou será caso perdido, pois nosso medo é advindo das mesmas razões e sentimentos que o  personagem Kafkiano em sua metamorfose, quando se percebe dragado por suas inúmeras dificuldades e acorda transformado em uma enigmática cascuda?

Será que assim como aquele personagem, esse  medo  não seria fruto do nosso desespero perante o absurdo da pressão social  em que vivemos, onde nos  furtamos cada dia mais  da nossa própria audácia  e tentamos  viver em pro do sempre agradar a titulo de não fugir do agonizante estereótipo social vigente,  violando  assim todos os aspectos da nossa condição humana,  ao contrario das barata?

Ou será que o padrão vigente é justamente ter medo de baratas e como seres globalizados deveremos seguir a correte e começar  de imediato o treino dos  4 metros para alcançar o teto? Quem sabe isso vire nova  de modalidade olímpica e quem sabe não sejamos bem sucedidos nesta?

domingo, 22 de novembro de 2015

Sob a luz da escuridão

Eu adoro fotografias. Pensei ser fotógrafa, mas isso foi antes de um professor na faculdade que, de tão autossuficiente, me causou enorme trauma. 

E como sou facilmente traumatizável, jamais consegui me livrar da imagem daquele homem, falando mil vezes a mesma coisa, algo em torno de uma certa fotografia da qual havia sido premiado por diversas e diversas vezes.

É certo que foram apenas seis meses, os mais logos de minha vida, ouvindo sobre as dezenas de premiações, centenas talvez, já que cada dia se lembrava de mais algumas e finalizava com um acentuado visse, toda e qualquer frase pronunciada, olhando cada um de nós no fundo dos olhos.

Ele tinha olhar panorâmico. Quer dizer, de raio laser, já que na maioria das vezes, eu me encontrava  do lado de fora da sala e, nem por isso, era poupada através daquela parede. Por muito tempo, não pude ouvir um visse, de que tanto gosto, mas felizmente disso já me recuperei.

Em compensação, nunca mais cheguei perto de uma maquina fotográfica. Até com as selfs ainda não me dou bem. Devo agradecê-lo por isso. Poupo assim, os amigos de face de mais alguns milhares de caras e bocas.

Mas há tempos, vi uma fotografia em um site que me chamou a atenção, não sei de quem é, pois não tinha créditos. Uma daquelas que faz o caracol aqui lembrar-se da casinha que trás nas costas. Logo pensei, preciso escreve algo para ilustrar com isso. Cada pessoa é inspirada para exercer seus dons, através de uma situação ou elemento. Para algumas outras atividades que exerço, quem  me  inspira é a necessidade financeira, para escrever são as fotografias, as de natureza morte em especial.

O marido de uma amiga, por exemplo, é um pintor, injustamente desconhecido, cuja inspiração gira em toro de elementos do cotidiano. Em toda a sua arte, aparecem vassouras. Vassouras de canto, vassouras penduradas, vassouras deitadas, vassouras de avental, vassouras em frente ao espelho, vassouras maquiadas, com cerdas, sem cerdas, caracoladas, lisas; vassouras gordas, magras; tem até vassoura de culotes, estrias e celulites.  Um dia foi de assalto a casa deles e advinha quem estava fazendo a faxina¿

Quem sabe em breve eu não comece a escrever aqui sobre, louças; talheres e  panelas¿ Mas, foi justamente em uma semana que matérial não me faltou para exortar a fotografia, com tantas noites turvas de verão nestes últimos dias. A comunidade onde vivo, fica num bairro de nome imponente. Sonoridade incrível, Paisagem Renoir, tal qual o sobrenome do  pintor impressionista francês, Pierre-Auguste Renoir. 

Cada vez que preciso passar meu endereço, além das pessoas me olharem como se eu realmente  vivesse em um chiquérrimo bairro francês, a maioria das vezes preciso ressaltar que a grafia da última silaba  é I em vez A, já que se escreve Renoir mas se fala Renoar.

Quem ouve pensa. Até parece que temos energia elétrica todos os dias. Mero engano. A luz pra nós falta dia sim, e o outro também. Esta semana batemos nosso recorde. A alegação da companhia elétrica é sempre a mesma: Excesso de chuvas: Se verdade fosse, estaríamos mais enlameadas que a triste Mariana das Minas Grais, pois não haveria diques ou barragens para conter tamanho aguaceiro. As vezes até chove, mas na maioria das vezes, penso que a energia fogo é mesmo do sol quente.

Até os cachorros daqui agora só fazem o número 2, por receio de que a  eletricidade, pensando ser tempestade, bata em retirada sem aviso prévio e por tempo indeterminado. Tristes animais não desejam outra coisa senão retornar aos seus iluminados  bairros de origem e retomar seu hábito tão secular,  fazer xixi nos postes.

Mas as noites de escuridão não são de tudo ruins. É quando nos workaholic somos, por força maior, obrigadas a parar e fazer aquilo que realmente nos dá prazer sem limites.  Formam-se então pequenas reuniões em frente às casas escuras, assemelhando-se certas cidades do interior do Brasil, quando ainda não dispunham da conta de energia para todos, e fala-se mal do sexo oposto.

Fala-se também dos quilinhos a mais nos outros,  do serviço mal feito da faxineira,  do vizinho  que não recolheu as  fezes do seu cachorro, do outro cuja especialidades e denunciar os gatos saltimbanco dos moradores, e por fim, falar mal do síndico. Penso que a parte mais prazerosa de se morar em um condômino clube, resort e bla bla blaé é falar mal da administração em geral, principalmente, sob a luz da lua.

Enfim, só não vale falar de trabalho ou chefes, apesar de ser muito prazeroso. Abrimos exceção, num caso de extrema necessidade, tal como, por exemplo, o louro amarelão das novas luzes do cabelo da chefe, em tempos de platinum azulado

E começado pelos cabelos, chegamos até as unhas. Expomos as nossas cores do esmalte da semana, mas como está escuro,  falamos por nome. Pois, atualmente, quem não conhece esmaltes pelo nome, precisa se situar; rever os conceitos; caso contrário, acabará fora de mercado. Como se iniciar uma reunião em dias atuais,  sem a discussão inicial em torno das tonalidades dos esmaltes usados pelas participastes¿

Esses dias ousei até descer uma ou duas ruas para saber se havia novidades em torno de novos flagrantes caninos,  ou alguma cor de esmalte que ainda não conheço. Mas como a falta de energia se tornou recorrente, os temas estão batidos. Numa das rodas o assunto ficou tenso. Em vez de esmaltes, homens discutiam a possibilidade de uma vaquinha para a aquisição de gerador pra aquela rua.

Estão cansados de perder o futebol das quartas. A mim não apeteceu a ideia, sugeri candeeiros, mais poético, mais vintage, mais retrô, recicláveis, mais modernos,  já que velas no bairro estão superinflancionadas,  é claro.  Ninguém sabia do que se tratava um candeeiro. Tentei explicar, mas não tive didática suficiente. Meu artefato não propicia visualização de gols.  Não há fatos, não tem argumentos. Perdi nas retóricas. Sai a francesa.

Foi ai onde me lembrei da fotografia acima, corri a escrever, antes que minha ideia esbarrasse como diria Augusto dos Anjos “no molambo da língua paralitica”. Mas sem luz, sem bateria, sem fosforo sem vela e sem candeeiro, sem sono. Até o Moshé já se cansou. Sofre sem seus bichos de luz pra caçar, procurou se recolher mais cedo e só a escuridão é minha companheira inseparável.

Então me propus a pensar na ideia do gerador enquanto tomava alguma coisa gelada, no bairro vizinho, com um especialista, pós-graduado pela (FFF) Faculdade Federal da Fubuía  tal qual fazem os demais homens para organizar melhor as ideias.

domingo, 8 de novembro de 2015

Quanto custa ter um gato no vivia vida

Grande parte deste condomínio me conhece e sabe que nestes mais de quatro anos, jamais expus minha opinião neste grupo, nem contra nem a favor, sobre quaisquer que tenha sido o debate. Hoje, infelizmente, venho relatar aos amigos e vizinhos, principalmente, aqueles que, como eu, possuem gatos de estimação, que fui multada, cuja alegação foi ter um “Gato solto no condomínio”
Não estou de forma alguma me eximindo de culpas. Pois meu gato, como algumas vezes já me ouviram relatar “ Eu o tirei das ruas mas a rua não saiu dele” Questiono apenas ter sido multada sem prévia notificação. Questiono os critérios que foram utilizados para a efetuação da multa, pois também não fui informada se houve peripécias cometidas por meu gato em moradias alheias ou se é pelo simples fato de ele, algumas vezes, ficar solto durante o dia. Sobretudo, questiono o valor da multa, que nem de longe é irrisória.Exatos R$ 1.782, reais em moeda correte e à vista, já que vem atrelada ao valor do condomínio.
Sabemos que há muitas regras pré-estabelecidas em nosso RI completamente em desuso, assim sendo, alguns hábitos, toraram-se quase lei, ainda que não tenham sido ratificados em Assembleia. A exemplo disso, muitos gatos ficam soltos, bem como as crianças que não poderia brincar nas ruas, acostumaram-se a brincam e devem continuar.
Restringi-las apenas à área de playground é uma tática infundada ainda que eu não tenha filhos. Mas reconheço que é muito mais fácil olhar as crianças em frete de casa do que controla-las à distancia. Por isso, seriam necessárias previas notificações quando se decidir fazer cumprir à risca as regras do condomínio, vista que alguns hábitos, já se sobrepuseram às leis do regimento interno.
Eu, mais do que ninguém, devido à minha ocupação aqui neste condomínio, conheço a opinião de grade parte dos moradores. Ouço diariamente muitas queixas, entre as quais estão: Fezes de cachorro nas garagem, gatos que destruíram o lixo do lado de fora, alegação nem sempre cabível, pois esse traço canastrão deve-se muito mais aos belíssimos gaviões carcará de cabeça amarela que destroçam o lixo e depois repousa lindamente de papo cheio em nossas claraboias; reclamam também do barulho das crianças, que amassam os carros jogando bola em frente as suas garages, dos gatos que entram pelas janelas abertas e, por fim, dos condôminos que ultrapassam o limite de velocidade “Bichos” leia-se pobres insetos, que cujo habitar é que fora invadido por nós e os dois campeões de bilheteria: Portaria e piscina.
Não raro tenho sido mediadora de grades embates sobre questões administrativas deste residencial. Procuro sempre valorizar os pontos assertivos das administrações, levando em conta as proporções gigantescas desta nossa comunidade, pois somos, indiscutivelmente, maiores que certas cidades do interior do Brasil, não em extensão mais em população, e tudo isso é algo relativo a que se considerar.
Algumas dessas intemperes ocorrem comigo também. Por isso, exercito minha balança interior todos os dias. Apesar de tudo, os prós aparecem em constante vantagem. Mas em geral, os mais reclamões são aqueles que estão morando pela primeira vez em condomínio e, uma vez aqui, circundados por um fino muro, acham-se acima do bem e do mal. Eu saliento sempre: que quando viemos morar em uma comunidade, cujas paredes assemelham-se a papel e a nossa visão da sacada é nada menos que a cama do vizinho da frente, a palavra privacidade deverá ser pronunciada com parcimônia.
Devemos ter consciência de que o latido e o odor das fezes do cachorro do vizinho poderão incomodar-nos. Um gato saltimbanco poderá adentrar a nossa janela sem maiores pudores, bem como o filhinho do vizinho aprendendo a pilotar sua motoca elétrica pode nos acordar às sete da manhã no domingo; ou outro brincar de esconde-esconde na garagem e transformar aquele belíssimo vazo de plantas em dez partes quase iguais. Mas, desde que não seja corriqueiro isto é viver em comunidade. Ainda assim, é melhor que o incessante ruído dos motores e buzinas de carros e ter de depender da lei do Psiu para dormir, quando ela nunca funciona.
Mais uma vez reitero que não estou aqui tagarelando para me eximir de pagar essa multa ou defender os gatos. Defendo sim, o bom senso, que quando bem aplicado só promove o bem comum. Se essa penalidade for legítima não há o que se discutir, pagarei. Apenas gostaria de obter mais detalhes sobre os critérios utilizados para tal procedimento que ainda não me foram apresentados, embora eu já os tenha solicitado. Pois, acredito que deve ter havido demais razões que faça jus a um valor tão exorbitate, além da justificativa “ Gato solto” Também não gostaria que mais vizinhos se sentissem ultrajados como estou me sentido agora.
E também, lembrar à administração que não há consenso de que o extremismo tenha funcionado, seja ele nas relações familiares ou interpessoais tão pouco no exercício das funções profissionais

domingo, 25 de outubro de 2015

Viva o povo nordestino

fotografia: Micaela Coelho
Fui intimada pela Isabelle Bruni a escrever um texto sobre o  halloween, comemorado, se não me engano, no último dia deste mês. Então recaí àquela velha cogitação que cabe atualmente a quase todo jornalista diante da parcialidade das mídias, com raras exceções,  contra ou a favor” Ela deixou a meu critério. Pensei comigo: Como és corajosa!

Mas como ouve demais comemorações este mês, não tão importantes, é claro, sem que eu tenha me pronunciado, como o dia da criança, da  amiga Cidinha, padroeira do Brasil e o dia do nordestino não achei justo falar apenas  das bruxas. Homenagearei  primeiro esta outra  comunidade bem menos notória,  os irmãos nordestinos!

Sei que alguns incautos poderão recorrer à eterna  indagação.  Por que comemorar o dia do nordestino, assim como se questiona um dia do índio, do negro, da arvore... É justamente, porque na escala social brasileira, ainda estamos muito aquém da valorização  do papel que realmente prestamos este país.

Quando digo isso, não me refiro apenas à velha mítica que muitos adoram proferir como se estivessem se redimindo de todos os pecados e preconceitos contra certas camadas da população brasileira. “ Devemos agradecer aos nordestinos, se não fossem eles, São Paulo não  seria o que é”. De certa forma sim. Mas isso me lembra duma outra pérola não menos proferida por ai. “ Não sou preconceituoso, minha cozinheira e meu motoristas são negros”.

Quem sabe, em breve, não precisaremos mais de um dia pra ser lembrados, isso indicará que seremos tratados de igual pra igual. Pois os índios, outrora,  donos de todas essas terras e do seu manejo além  da língua primórdia são apenas seres místicos e exóticos.  Os afrodescendentes, cuja base da construção deste país, ainda que por um viés pouco lisonjeiro, não cabe méritos a outro senão a eles, inclusive culturalmente falando, são resumidos a mero grupo de pobres e violentos numa  sociedade cinquenta por ceto Afro.

E nós nordestinos que, de certa forma, somos um terceiro elementos gerado desses dois povos, fomos e ainda somos os responsáveis pela engrenagem  motora que rege esta nação,  além  de escabeçarmos não raro,  pontos cruciais como a cultura e a politica deste país. Esta última, nem sempre, é um ponto a que se  orgulhar. Mas,  ainda assim,  não deveríamos ser apenas reconhecidos como aqueles cuja única contribuição  a esta sociedade se resume à forma braçal como ajudamos a verticalizar as grades capitais.

Por isso me irrito quando, não raro, alguém tenta me fazer um elogio, dizendo que não me pareço  nordestina, na mesma proporção que me sugerem deixar de ser tão interiormente nordestina. Um amigo jornalista, certa vez, leu um texto meu e achou-se maravilhado.  “Porém muito nordestino”: lamentou-se a seguir. Aconselhou-me a deixar de escrever em nordestines. (Sic).  Até tentei. Pois não sou uma pessoa de ideias tão cimentadas, mas não consegui. Você tira um homem do nordeste, mas não o nordeste de dentro dele. Quisera que isto fosse tão somete, um jogo de palavras, um jargão  que nos leva a lugares comum. 

Mas é, verdadeiramente, impossível a nós,  ver o amarelidão de um  por do sol, o som de um berrante, a chorosa toada dos vaqueiros, a ossada de um animal combalido pela seca, a terra rachado pelo sol, um rio seco, uma plantação perdida, o canto da seriema, o voou de uma codorna, o agonizante  canto da  Asa branca,  e até o relinchar do jumento, nosso irmão, como bem disse o poeta Luiz Gonzaga e uma flor de mandacaru desabrochar sem se lembrar do nosso torrão natal. Como sentir o perfume e os sons de nossa terra sem se emocionar?

Um vizinho quando leu a minha biografia na orelha do livro, No divã com a manicure, não poupou verbo, como segue trecho abaixo do extraído do e-mail enviado por ele: “ Quando é que você e todos os nordestinos deste país vão se libertar deste modelo padrão de pobre coitado. Não só você, a Marina Silva, o Lula, e um monte de nordestino que conheço. Precisam falar da vida sofrida, sem recursos e etc” - Indagação pertinente. Suponho. Em outros tempos, ficaria lisonjeada de ser citada entre nordestinos tão célebres, ainda que Marina seja apenas descendente.  Hoje, apenas aceito a crítica com resignação.

Talvez eu sofra  sim da  síndrome do nordestino e suas mazelas, pois além da cabeça achatada e sotaque proeminente, sou do mato, do sertão, da seca, cujos princípios, coração e sentidos foram os únicos a não ser ressequidos, tal qual tudo que tentava germinar  na região em que fui criada. Deixar de ter a miséria como um grande cartaz, não é responsabilidade apenas nossa tão pouco de Deus que nos brindou com o mérito da seca.

Nós  fomos levados ao êxodo dos eternos retirantes e assim formamos a fibrosa camada dos desbravadores desconhecidos, embora sejamos os sujeitos mais oblíquos deste continente chamado Brasil. Estamos por toda parte, inclusive culturalmente, embora apenas somos reconhecidos pela nossa tradicional mão de  obra braçal. E como não tivemos a oportunidade de nos contrapor, a tais ideias,  há muito nos propusemos  a viver com o estigma inferior da eterna da servidão voluntaria.

Muitos  elementos nordestinos repousam sim com vida própria dentro de mim.  Seja no vocábulo ou no  modo de pensar ou de defender minha cultura. Com quanto, não me permitem ceder facilmente a cultos massificados. Novos produtos da aculturação que assola o país com a força das grandes torrentes, aonde apaga tudo que existia e sufraga a cada dia nossa cultura primeira, se redesenhando novas tradições, cuja  significância não nos representa absolutamente nada a não ser o cultural jeito americanizado de estimular o consumo.

Demais, “Posso até trocar as minhas folhas, mas jamais arrancarei minhas raízes. A essência vale mais que a embalagem” como bem disse Yla Fernandes. Ou mais “Aquele que negar as raízes irá tombar na primeira tempestade' -Thiago O. Rodrigues



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

As pedras do meu caminho

foto: Katja Rubiszewska
Quando eu era criança, minha prima Vanusa  me confessava desolada, que seu pai a levaria para carpir a roça durante todos os finais de semana, inclusive aquele quado  nós gostaríamos muito de brincar. 

Essa menina, assim como eu, foi criada, trabalhando no cultivo do sisal no interior da Bahia.

O contingente de crianças que trabalhavam no sisal era superior ao de adultos, já que o processo de produção era um sistema familiar. Pais e filhos se desdobravam para adquirir o sustento da família e, como se tratava de uma atividade muito pesada para criaturas tão pequenas, nós ficávamos constantemente cansadas a ponto de não conseguirmos  estudar ou até mesmo brincar após o trabalho.

Mas, depois do árduo expediente de segunda a sábado, éramos convocadas ao exercício de outras atividades tais como os afazeres domésticos, a lida com animais, ou trabalhar na lavoura, como se fosse um prêmio pelo ótimo desempenho semanal no sisal.

Certa vez entrei numa famosa loja de decoração aqui em São Paulo, e a moça veio toda gentil me oferecer um artigo excelente. Um tapete de sisal. Se quer ouvi o restante da explicação. Apenas  dei meia volta. A sensação que tive não foi, necessariamente, como se o oponente de uma sangrenta guerra viesse me cumprimentar, mas a de uma ferida aberta que há anos tenta sem sucesso, cicatrizar.

E, diante da nossa aparente insatisfação em não poder brincar juntas naquele dia, meu tio Quica,  que se encontrava cortando fumo de rolo na sala, olhou-nos de soslaio e disse com resignação. “ A vida do pobre é assim mesmo, enquanto se descansa, carrega-se
pedras”.

Do alto dos meus 8 anos, não entendi o emaranhado da frase que misturava pobre com pedras. Só agora, tanto anos mais tarde, compreendo realmente o sentido literal da coisa. Ou seja, trabalho de 14 a 16 horas por dia, e a noite, corrijo os textos do livro. Como diria a minha cliente Eli. Dormir pra que¿

Pois são tantas as minhas pedras que nem mesmo Drummond daria conta de mencioná-las.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Estágio depois do desespero 3

Qualquer dia, esse meu peculiar  esquecimento, ou desorganização me levará  a um terreno perigoso.

Hoje, mais uma vez, estive além do desespero grau 3. Fui a uma lan hause, scannear alguns documentos, apesar de ter uma impressora com scanner em casa.

No entanto,  por mais que uma amiga tentasse, com toda a suas forças me auxiliar via face, como se realiza este procedimento, acho que me sairia melhor numa cirurgia coronária.

Então, lá fui eu a lan hause; preço do serviço: 5, 00 contos. Foi quando percebi  que não tinha levado dinheiro algum:Moço esqueci o dinheiro! Essa frase me é muito peculiar.

Ele me olhou com aquela cara de desconfiado.  Como quem pesa: Que golpe mais ultrapassado!  Corri no carro. Opa!  Duas notinhas azuis reluzia para mim no console. Alivio.
Pois  o outro real seria muito fácil de arrecadar ali por baixo dos bacos ou dentro da dezenas de sapatos,  bolso de casacos ou coisa do tipo. Mas só achei 5 moedinhas de 10. 

Não desisti. Até que tive a visão mais consoladora dos meus últimos 40 anos. Uma moeda de um real. Puxa vida. Sobrar-me-ia  50. Será que daria uma dose de pinga¿. cogitei!  Corria à pegá-la. Repousava muito bem entre a poltrona de passageiros e o porta treco.

Mas acho que fui com muita sede ao pote. Ela escorregou. E, quanto mais eu tentava mais ela escorria das minhas vista.  E não houve tentativa de resgatá-la que não falhasse absolutamente.  Tive ímpetos de levantar o carro e chacoalhar como quem verifica o bolso de uma roupa, antes de lavar. Enfim,  a perdi!

E uma pena que ainda não se vende dinheiro no cartão de credito.  Eu teria comprado esse real miserável por boa quantia.  Pois até um cartão eu achei ali. Mas o estabelecimento não aceitava.

Apenas a troco de não ter de voltar em casa,  pegar 50 centavos e tornar  lá para resgatar meus documentos. Ainda bem que era perto. Pois na semana passada fui ao médico na Vila Mariana; como esqueci todos os documentos, não me queriam deixar entrar no prédio.


Voltei correndo ao estacionamento,  recorri a (Cade minha crase?) CNH. Mas para minha grata surpresa,  também dirigia sem carta e muito longe de casa. 

Ainda bem que um sorriso ainda pode valer muito. Utilizei-me dele, para com a mocinha mais triste da recepção e ela me permitiu entrar sob uma saraivada de admoestações, das quais não seria sutil, repeti-las aqui.

Hoje, poderia ter me utilizado deste artifício, mais estava tão zangada comigo mesma, que era mais fácil, regurgitar marimbondos, cuja vontade era tão somete de me estapear. Mas porque me amo, não o fiz!